A explosão de eventos literários no Brasil

  • Angelo Miranda
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Uma das últimas medidas tomadas pela então Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, foi a alteração na Lei Rouanet, uma lei da década de 1990 que permite empresas e pessoas físicas ao investirem em Cultura, deduzirem esses valores nos seus impostos de renda. Uma alteração num artigo da lei que tornou os investimentos em feiras, festivais e afins, 100% dedutivos nos impostos de renda, levou principalmente as empresas a investirem mais em tais eventos resultando numa explosão de eventos literários no Brasil. Para se ter uma ideia da dimensão, em janeiro deste ano já estava programado para ocorrer no Brasil mais de 300 eventos ligados à literatura.

O fato curioso é que um país que não tem característica de ser leitor como o Brasil, onde a média de leitura é de apenas 1,7 livros por ano, apresenta a cada ano um aumento do número de eventos literários que não faz distinção do porte do município para ocorrer. Vale salientar que no passado os eventos literários eram praticamente restritos aos grandes municípios do eixo Rio de Janeiro – São Paulo e que ainda tinham um caráter mais elitizado, ocorrendo em colégios particulares, clubes, centros culturais entre outros.

Os atuais eventos literários ocorrem em diversos municípios brasileiros, inclusive naqueles onde há menor oferta de livrarias, de bibliotecas e, portanto, de livros, numa tentativa de despertar o interesse das pessoas pela literatura e alterar a realidade local. Assim, observamos que os eventos literários já começaram a ocupar um papel antes ocupado pelas bibliotecas no que se refere ao estímulo à leitura, haja vista que são eventos atrativos por reunirem uma série de atividades tendo como foco a literatura e os livros.

A cidade quando organiza e recebe um evento literário, atrai a atenção da população, principalmente a local, que começa a se sentir estimulada a ler, ao ouvir o que um escritor tem a dizer, a ouvir uma declamação de poema ou a leitura de um conto, por exemplo. Várias vezes eu presenciei alguns amigos e parentes que não se interessavam muito pela leitura, passarem a lerem mais porque participaram de um evento literário comigo onde puderam comprar um livro direto com um escritor ou que escutaram um escritor explicar sobre a sua obra.

Mas para alguns escritores há um lado negativo em relação à explosão de eventos literários no Brasil. Eles temem que o escritor não será mais avaliado pela qualidade do seu texto, da sua obra, e sim, pela forma com que ele interage com o público num bate-papo ou numa apresentação num evento. Ou seja, foi engraçado, fez a plateia chorar de rir ou chorar de emoção, o livro vende! Agora, o escritor, mesmo que tenha um belo livro, mas que é tímido e devido à essa condição não conseguiu ter uma boa desenvoltura na sua fala e uma boa performance no palco, por exemplo, o livro não vende!

Outros se preocupam com a ideia de que muitos que frequentam os eventos literários estão mais preocupados em conhecer a pessoa e não o trabalho da pessoa como escritor, ou seja, para esses, há uma massa de interessados em não conhecer a literatura desses escritores, mas sim, as suas ideias, o seu senso de humor ou não, as suas histórias de vida, as alegrias, os desafios, os dissabores, os fatos curiosos e outro não, entre outros, enquanto o interesse pela produção literária do autor, que muitos consideram mais importante que a vida privada do escritor, fica relegado a um segundo patamar.

Acredito que as feiras, festas, salões de leitura, bienais, jornadas e festivais têm muito mais aspectos positivos do que negativos e são, sem dúvida, um meio poderoso de disseminar para os não-leitores a leitura e para aqueles que já são leitores, o fortalecimento dessa prática.

Ressalto também a importância desses eventos literários para os escritores independentes, haja vista que muitos deles oferecem alguns espaços para eles participarem e divulgarem as suas obras.

Imagino o quanto o país mudaria, em diversos aspectos, se acontecesse um evento literário em cada um dos 5.570 municípios brasileiros. Teríamos 5.570 eventos! Nunca na história desse país, como diria o ex-presidente Lula, o livro teria um protagonismo tão importante. Que espalhem mais eventos literários pelo Brasil!